Qual o perigo de nossos terremotos?

 
Novo Tópico   Responder Mensagem    Fórum da Engenharia Civil - Índice do Fórum -> Notícias
Autor Mensagem
Fabiano
Moderador
Moderador


Registrado em: Domingo, 11 de Janeiro de 2004
Mensagens: 367

MensagemEnviada: Sáb Jan 21, 2006 10:34 am    Assunto: Qual o perigo de nossos terremotos? Responder com Citação

Qual o perigo de nossos terremotos?

O Brasil tem poucos terremotos, e eles nem costumam ser tão grandes assim, por isso os chamamos de tremores de terra. Geralmente os sismos são de baixa a moderada magnitude, afetam áreas restritas, são sentidos por um número limitado de pessoas e não causam danos significativos. Isso acontece porque estamos quase no meio de uma enorme placa tectônica, distante de suas bordas, que é o local onde há numerosos e grandes terremotos devido ao constante atrito e a deformação de rochas. No Japão, às vezes, em um ano, ocorrem mais sismos que todos aqueles já registrados no Brasil. Será que tais informações são argumentos para considerarmos nosso país livre do perigo sísmico? Certamente que não. É possível que o Brasil nunca venha a ser atingido por um superterremoto, mas é bom lembrar que os maiores sismos aqui ocorridos possuíam potencial para gerar danos severos.

Hoje os terremotos são registrados por instrumentos extremamente sensíveis, mas no passado não era assim. A sismicidade pretérita de uma região pode ser conhecida através de relatos sobre a ocorrência de antigos sismos, descritos em velhos jornais e documentos. No Brasil, a mais completa compilação dessa informação resultou de um trabalho conjunto USP/UnB, que mostra dados desde o período da colonização do país. Um sismo histórico só é conhecido porque existiu alguém para relatá-lo, mas sabemos que grande parte de nossa população viveu no litoral por séculos. É muito provável que muitos tremores ocorridos no interior do país deixaram de ser considerados, aumentando nossa incerteza quanto ao nível da sismicidade passada. Dessa forma, além de incompleta, a informação sobre nossa história sísmica é também limitada no tempo, por sermos um país jovem. A China conhece a história de seus terremotos há 3.000 anos.

A maioria dos terremotos resulta de processo geológico que tem seu clímax quando ondas sísmicas sacodem o chão após uma quebra no terreno. Tal processo pode tardar dezenas ou centenas de anos para se desenvolver, e sabemos também que os terremotos se repetem; eles costumam acontecer em locais onde ocorreram anteriormente. Não é impossível que tremores fortes tenham sacudido nosso país no passado, e poderiam voltar a acontecer nos dias atuais. Mas exatamente quando e onde aparecerão ainda não é possível prever, e tal desconhecimento não é limitação dos sismólogos brasileiros. Predição de terremotos, com precisão no tempo e no espaço é tema excitante, desafiador, mas longe ainda de ser resolvido pela comunidade sismológica mundial.

O catálogo dos sismos brasileiros, históricos e instrumentais, soma alguns milhares de pequenos eventos espalhados pelo país. Nessa lista, mais de uma dezena deles apresentam magnitudes acima de 5,0 e duas superiores a 6,0. Curiosamente, os dois maiores aconteceram com um intervalo de quatro semanas. O primeiro, no norte do Mato Grosso em 31/01/55, com magnitude 6,6 e o outro, de 6,3 teve seu epicentro no mar, a 360 km de Vitória (ES), em 28/02/55. Em nenhum dos casos houve danos sérios, porque o primeiro sismo atingiu uma zona pouco habitada na época, e as ondas sísmicas do segundo chegaram bastante atenuadas na costa brasileira. O que aconteceria hoje, e como reagiria a sociedade, se eventos similares se repetissem nas próximas quatro semanas, só que agora próximos a grandes cidades? É difícil imaginar todo o cenário, mas possivelmente teríamos muitos danos porque simplesmente estamos mais vulneráveis. Sismos com essa magnitude podem afetar duramente uma cidade, dependendo da proximidade do epicentro, da geologia local e da qualidade das construções. Quantas grandes metrópoles no Brasil cresceram de modo desordenado e apresentam áreas de riscos acentuados, particularmente às populações mais humildes de suas periferias? Um sismo com magnitude na ordem de 6.0, próximo a uma dessas cidades, poderia ser o gatilho para desencadear uma sucessão de desastres com resultados surpreendentes, incluindo vítimas fatais.

Se de um lado existe um perigo latente, do outro há pontos positivos a considerar. Há 40 anos nossos tremores de terra eram explicados de forma simplista e, para muitos, o país era considerado assísmico. Desde então, muito progresso foi alcançado no conhecimento de nossa sismicidade, na modernização dos equipamentos de detecção, na ampliação de recursos para pesquisas, no crescimento e na qualificação de pessoal. Atualmente contamos com cerca de uma centena de estações monitorando continuamente o país. Grandes obras de engenharia são edificadas com coeficientes de segurança anti-sísmico, várias áreas de reservatórios hidrelétricos são monitoradas e, e muitas das casas de João Câmara-RN, danificadas pela intensa atividade sísmica de 1986, foram reconstruídas com especificações para suportar novos abalos de terra.

Seria errôneo desconsiderar a ameaça representada pelos nossos tremores de terra. O risco sísmico existe e não é desprezível. Os sismólogos conhecem as regiões mais ativas do país e podem estimar seus riscos sísmicos. É nelas que se deveria focar maior atenção. É hora de haver maior integração entre engenheiros, arquitetos e sismólogos para melhorar o padrão de certas construções a serem edificadas naquelas regiões mais ativas, pois é certo que lá novos tremores de terra voltarão a acontecer.

* ALBERTO VELOSO é professor aposentado do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB).

Fonte: Diário de Cuiabá
Voltar ao Topo
Links Patrocinados
Voltar ao Topo
Mostrar os tópicos anteriores:   
Novo Tópico   Responder Mensagem    Fórum da Engenharia Civil - Índice do Fórum -> Notícias Todos os horários são GMT - 3 Hours
Página 1 de 1

 


Powered by phpBB © 2001, 2005 phpBB Group
Traduzido por: Suporte phpBB