O risco das edificações brasilienses
Por Antonio Nepomuceno e João Teatini (*)
A recente ruptura de um trecho da laje superior do viaduto no Eixo Rodoviário Norte (Eixão) sobre a Via N2, causada pelo rompimento de alguns cabos de aço de proteção da laje, nos obriga a fazer algumas reflexões sobre as edificações de Brasília.
A cidade, concebida com arrojo arquitetônico e urbanístico, exigiu também da engenharia uma excepcional capacidade criativa para atender à segurança e rapidez de execução, em uma época em que se difundiam novas soluções tecnológicas para atender à demanda de grandes construções. Essa concepção e construção arrojadas ganharam reconhecimento internacional em 1987, com a inclusão de Brasília no Patrimônio Cultural da Humanidade – a única cidade construída no século XX a merecer esse título.
Entretanto, não só no Brasil, mas também internacionalmente, por ocasião da construção de Brasília, os conceitos de durabilidade não eram explicitados nas normas técnicas de cálculo e execução de estruturas de concreto, com as concepções estruturais da época não observando, muitas vezes, as disposições mais adequadas aos aspectos de manutenção e vida útil das edificações. Por isso, o meio técnico, ao projetar uma estrutura, de maneira geral, não incluía disposições necessárias para inspecioná-la e mantê-la no seu dia a dia, de forma a garantir-lhe a durabilidade adequada.
Também os currículos dos cursos de Engenharia Civil não contemplavam conhecimentos dentro dessa visão. Assim, muitas edificações de Brasília, como vários viadutos do Setor Central e a Plataforma Superior da Rodoviária, foram construídas com tecnologias inovadoras para a época, como o concreto pretendido, mas que apresentam deficiências quanto à possibilidade de inspeção das estruturas para sua manutenção.
Nesse momento em que a cidade está próxima de completar 50 anos, deve-se alertar que problemas similares ao do viaduto no Eixão sobre a N2 possam ocorrer de maneira mais freqüente. As concepções estruturais que impedem a visualização das suas regiões críticas são agravadas pelo fato dos órgãos governamentais, refletindo uma cultura da sociedade e mesmo das entidades de classe do setor da construção, não terem ainda incorporado a prática sistemática de manutenção preventiva, abrangendo inspeções e programas de intervenção periódica antes que os problemas ocorram.
Essa situação exige uma mudança da postura com relação aos equipamentos viários e edificações de Brasília, especialmente, as tombadas como Patrimônio Cultural da Humanidade. A solução não passa apenas por ações pontuais quando ocorre um problema, mas pela elaboração e o estabelecimento de uma programação de recuperação e modernização dessas estruturas, para incorporar os novos conceitos de manutenção e durabilidade.
Nesse sentido, a nossa norma técnica de projeto de estruturas de concreto armado e protendido, a NBR 6118, colocada em vigor em 2003, acumula conceitos e disposições que já há mais tempo estão em vigência na maioria das normas internacionais.
Preocupados com a situação presente, que ocorre também em outras partes do Brasil, o Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), desde 1992, vem inserindo em seus cursos disciplinas que abordem os conhecimentos de durabilidade, manutenção e recuperação de estruturas, propiciando aos seus alunos uma formação que lhes permita atuar na correção de problemas de médio e longo prazo.
A assessoria técnica fornecida por professores da UnB no diagnóstico, projeto de recuperação e acompanhamento das obras de recuperação da estrutura da Plataforma Superior da Rodoviária, de 1995 a 1997, contou com a participação de alunos de graduação e pós-graduação. Vários trabalhos de iniciação científica, projetos finais de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado já foram desenvolvidos nesses temas, inclusive estudos de estruturas de monumentos específicos, como a Rodoviária de Brasília, a Catedral e o Palácio do Itamaraty, entre outros. Diversos trabalhos foram também desenvolvidos em parceria de empresas de engenharia de Brasília que se sensibilizaram com o trabalho desenvolvido.
Com esta atuação, julgamos que a UnB está contribuindo, como dela se espera, para atender às demandas da sociedade e, inclusive, para a redução dos custos de manutenção e recuperação da estruturas de nossa cidade. É importante que a sociedade também se conscientize para mudar essa situação, por meio de seus quadros dirigentes, políticos e representações diversas e, em especial, os órgãos de classe, como os sindicatos de Engenheiros e de Arquitetos, da Industria da Construção e o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia.
(*) Antonio Alberto Nepomuceno e João Carlos Teatini são professores do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental e do Programa de Pós-graduação em Estruturas e Construção Civil da UnB.
Fonte: Campo Grande News